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Segunda-feira, 08 de Junho de 2026
Das Romarias às Cavalhadas: O Retrato de um Povo
Festa do Divino, Folia de Reis, barraquinhas, quermesses, terços, leilões, fogueiras, novenas e tantas outras festas herdadas do paganismo e adaptadas ao cristianismo faziam, e ainda fazem, a fé quente e a doma do povo à espera da redenção prometida pelo Jesus bíblico, católico e compassivo.
Charles Valente Jornalista e Cantador
Instagram: @charlesvalenteoficial
Spotify Charles Valente
Entre rezas e votos
“Vamos para a Romaria da Lapa, Dona Senhora!”
Era assim que os romeiros chamavam Ana Rodrigues, mais conhecida como Dona Senhora, primeira-dama de Nossa Senhora Santana da Posse e esposa do então prefeito Nestor Balduíno de Souza. Ouviam de pronto a resposta brincalhona e jocosa, cheia de filosofia popular:
“Boa romaria se faz quem, na sua casa, se acha em paz!”
Era uma espécie de alerta para que não houvesse excessos. Depois, como toda a comunidade, encilhavam suas montarias e rumavam para a Terra Ronca para cumprir seus votos e suas devoções anuais.
As festas populares, folclóricas e religiosas sempre foram um termômetro preciso para medir a saúde moral, cívica e religiosa do interior do Brasil, e neste Vale do Paranã não foi diferente. Era através das manifestações populares que coronéis, padres e políticos monitoravam seus currais eleitorais e mediam o poder aquisitivo de sua gente.
Um frango arrematado no leilão da quermesse era sinal de status e devoção. Além do tempero caprichado das beatas, o felizardo ainda levava a bênção do vigário, o olho gordo do vizinho e a admiração do coronel.
Festa do Divino, Folia de Reis, barraquinhas, quermesses, terços, leilões, fogueiras, novenas e tantas outras festas herdadas do paganismo e adaptadas ao cristianismo faziam, e ainda fazem, a fé quente e a doma do povo à espera da redenção prometida pelo Jesus bíblico, católico e compassivo.
Uma das manifestações culturais mais populares e cheias de esplendor são as tradicionais Cavalhadas, evento realizado em Goiás há mais de 200 anos, desde que foram trazidas para a então Província de Goiás, no século XVIII. O primeiro registro data de 1751, na cidade de Luziânia, então Santa Luzia.
Instituídas pela rainha Isabel de Portugal, motivada por novos conflitos religiosos, as Cavalhadas representam a luta entre os cavaleiros vestidos de azul (cristãos) e os vestidos de vermelho (mouros), armados de lanças e espadas.
A Cavalhada é uma celebração portuguesa tradicional que teve origem nos torneios medievais, onde os aristocratas exibiam, em espetáculos públicos, sua destreza e valentia, frequentemente envolvendo temas do período da Reconquista. Esta prática festiva, ritualística, folclórica e política ainda se mostra presente por estas bandas.
Essas manifestações populares fortaleceram de forma decisiva nosso folclore, nossas tradições e nossa cultura, preservando assim a nossa história e a nossa identidade. É bem verdade que, de uns tempos para cá, as nossas tradições vêm cedendo espaço para ideais ainda mais doutrinários e políticos, porém continuam sendo uma força tradicional nos municípios do Nordeste Goiano.
Nosso “Correio Elegante” cedeu espaço ao famigerado WhatsApp, e o cochicho ao pé do ouvido abriu as portas para as fake news, uma espécie de transgressão informatizada do oitavo mandamento.
Eu, de cá, como cantador das coisas da nossa gente, fico que nem Caboré, girando o pescoço e observando nossa arte, nossas tradições e nosso povo mudando.
A prata dos meus cabelos e as rugas da minha face dão testemunho de que vi e vivi, neste pedacinho do Brasil, chorando e sorrindo com a nossa gente, as mazelas e as alegrias desta terra.
Este é o nosso canto, a nossa Posse. Uma jovem senhora de 154 anos que ainda traz sua canção liberta, sua mente aberta e sempre alerta, ciente de que:
“O novo sempre vem!”
Charles Valente Jornalista e Cantador
Instagram: @charlesvalenteoficial
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